Alva. Inexata. Maria balançava os cabelos feitos ondas do mar, feito molas preto-azuladas. Seu corpo não era por ora esbelto, mas a bem distribuída carne fazia de Maria uma mulher desejada. Maria da Glória era o seu nome. Tem este nome pois há algumas décadas, quando do seu nascimento, Maria quase provoca a morte de sua querida mãe, enquanto saía de seu ventre. A mulher deu trabalho já quando nascia. Mas Maria da Glória era uma moça perseverante, graciosa, meiga, com um olhar profunda e jovial.

As ruas de sua cidade nunca estiveram tão vazias. A praça nunca tivera tantas folhas secas ao chão. O tempo nunca estivera tão frio. Maria andava contra o vento, brigando por um espaço no espaço, os cabelos titubeando de raiva por estarem sendo jogados ao nada. O olhar verde-claro não estava bem. A exuberância das dezenas de colares e acessórios que usava tornava-a talvez uma mulher de atitude, cheia de charme e beleza. O céu agora ficou preto. Maria da Glória olhava atenta para as nuvens rosas. Engraçado como as nuvens às vezes desenham-se no infinito, dando a entender formas e objetos inusitados. Maria da Glória parece que viu um crucifixo de nuvem no céu.

Por um momento pensou estar treslouca. Por um momento, Maria quis sair correndo no meio da praça, no meio das folhas, no meio do vento, no centro do espaço. Mas uma lágrima caía do rosto de Maria. O que era aquilo? Seria uma lágrima? Uma lágrima do rosto de Maria? Não. O céu preto que estava louco. Os verdes-claros olhos estavam molhados. Os verdes-claros olhos estava vermelhos. A pele alva estava quase branca. Maria da Glória era sempre inexata. Nunca deixara certeza de nada. Talvez Maria entendia a essência do ser humano.

Mas de que adiantava tudo aquilo, se Maria da Glória havia perdido o tom da vida? O mundo de Maria agora era quente, seco, era nada. Maria agora não pensava, talvez. Maria agora estava longe, muito longe. Aonde as estrelas jamais a encontrarão. Maria da Glória teve um fabuloso destino. Maria da Glória foi reduzida às quatro paredes de um caixão.

Publicado originalmente em 2006 em um blog no wordpress. by Thiago

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