Perdão. É disso que o filme trata ao longo de seus cento e onze minutos. Alvin Straight é um homem pacato, que vive com sua filha Rosie de meia-idade e problemas mentais em uma pequena cidade numa área rural nos Estados Unidos. No começo do filme já somos apresentados por uma situação-problema (assim como em todos os filmes de Lynch): Alvin está estirado no chão, sem poder mover-se. Um amigo encontra-o e em seguida sua adorada filha entra em pânico quando o vê caído no solo. Alvin vai ao médico contra a própria vontade, e ele indica o uso de bengalas por causa de seus precários movimentos. Depois, o médico também constata problemas visuais, possivelmente conseqüência de diabetes do personagem. Alvin recusa-se a tratamentos e até mesmo a usar as benditas bengalas, mas em seguida acaba cedendo.

Poster

Apaixonado por tratores, ele passa o dia a consertar e a mexer em um. Numa cena, ele está mexendo numas ferramentas, perto do veículo, quando um grande trovão anuncia a chegada de um temporal. Em seguida vemos pai e filha sentados à janela observando a chuva torrencial com suas grandes luzes fumegantes provindas dos raios.

“I love the light of the storm”, diz Alvin.

“Me too, dad”, retruca a filha.

Como de supetão, o telefone toca. Percebemos agora outro grande momento de qualquer filme de David Lynch: um ponto chave. A filha atende o telefone e anuncia para Alvin que seu irmão, Lyle, teve um derrame. Menos um segundo depois, um grande raio soa na cena, com um barulho maior que os raios anteriores. Simbologia, eu diria. Algo aconteceu. Algo vai acontecer. Alvin, de 79 anos, não se aquieta, pois não vê o irmão há dez anos. Numa cena, quando sua filha está na janela observando a paisagem, Alvin aparece de repente e anuncia que vai enfrentar as estradas. Há bastante convicção na expressão do personagem.

Tempo depois, mesmo sem o consentimentos dos amigos, que o chamavam de louco, Alvin pega seu trator, arruma uma pequeno trailer, e sai na estrada em busca de seu irmão. Acompanhamos o personagem nessa viagem maravilhosa que ele faz ao seu próprio passado, redescobrindo sentimentos e pensamentos até então escondidos. Aos 24 minutos do filme somos presenteados com uma bela trilha sonora composta e conduzida por Angelo Badalamenti (parceiro de Lynch há anos). Uma pequena canção de piano/violão que nos toca se realmente estivermos entendido o propósito do filme. E lá se vai Alvin Straight, um homem já de muita idade, só com a cara e a coragem, atrás de rever o seu grande irmão, que mora há mais de 300 milhas de onde ele está. Quando o vemos dirigindo o minúsculo trailer, logo pensamos “mas que frágil homem é esse! como ele conseguirá atravessar metade do país sozinho com esta idade e com este trator?”. Pois é. Tudo é questão de querer e de quebrar, ultrapassando as barreiras. Quando queremos algo, e miramos o nosso objetivo, o que os impede? Algo teoricamente pode até nos impedir, mas e se forem somente dificuldades ideológicas, que criamos sem propósito algum, só para não colocarmos à frente grandes projetos em nossa vida? Um homem de 79 anos pensa assim. Nunca me esquecerei de uma frase que Alvin disse em alguma parte deste filme. Um ciclista pergunta, “e então Alvin, qual a parte melhor de ser velho?” e ele responde: “olhar para trás, e se lembrar da sua juventude”. Ele conhece pessoas estranhas em sua vida, faz confidências a elas, encontra pessoas em uma pequena cidade, já perto do seu destino. Mas seu trator acaba dando um problema, fazendo com que permanecesse dois dias no local. Essa também é umas das principais cenas do filme: a receptividade daquele povo para com Alvin.

E logo depois chega o final do filme, quando Alvin, já cansado, consegue com muita dificuldade encontrar a casa do seu irmão. E com esse final, fazemos uma pequena reflexão sobre o sentido das coisas, o sentido do personagem ter traçado todo esse caminho até chegar ao seu final encontrando o irmão doente. No começo deste texto eu disse que o filme baseava-se no perdão. E agora sim esta afirmação faz sentido. Alvin e o irmão eram próximos mas infelizmente, por conta de problemas, ficaram sem se falar por dez anos. Mas podiam ter mantido contato mesmo assim. Mas não mantiveram. Depois de saber que ele estava quase à beira da morte, e com medo de nunca mais vê-lo, Alvin entrega-se ao perigo e ao objetivo de ir visitá-lo de vez. Perdoando-o por todo esse tempo de ausência, deixando de lado todas as implicações que talvez tiveram durante todo este tempo. Para quê? Porque? A película deixa estas singelas perguntas no ar. Talvez essa seja a maravilha de todos os cento e onze minutos. E de todos os filmes de Lynch.