É sempre difícil tentar escrever sobre qualquer obra do Lynch. O ideal seria sair do lugar-comum, sem mencionar o quão ‘confuso’ você fica quando termina um filme dele. Mas vamos lá.

DL, na sua carreira, trabalhou com uma simbologia ímpar. O correto seria deixar os sentidos “à vontade” para descobrir o real significado de qualquer produção dele. Veludo Azul é mais ou menos assim: uma cadeia de mistérios envolve uma pequena cidade interiorana, e você é “automaticamente” levado a ela e é também sugado pelo desejo de tentar descobrir o que é a todo custo. O filme começa com uma espécie de clichê: paisagem perfeita, flores lindas, céu azul, bombeiro dando tchauzinho, um agente de trânsito atravessando crianças na rua, um homem normal aguando as plantas de seu jardim. Mas é aí que começa: o tal personagem tem um derrame e cai no chão.

Nem tudo está tão perfeito assim. Na outra cena o personagem principal acha uma orelha cortada no meio da grama. A câmera focaliza a orelha e “entra” nela. É como se fosse uma passagem para o outro mundo. O mundo de mistérios. Vale salientar a tagline do filme “It’s a strange, strange world..”

O elenco, claro, magnífico. Laura Dern, Kyle MacLachlan, Isabella Rosellini, Dennis Hopper… Naqueles idos anos de 1986, DL queria muito trabalhar com o McLachlan e a Dern. O motivo pelo qual ele escolheu Kyle me impressionou bastante. Pelas palavras do próprio: “Muitos atores têm o rostinho bonito mas não conseguem pensar enquanto atuam. O Kyle não… ele tem um olhar que ‘pensa’ enquanto atua. Queria alguém assim. Com o olhar de mistério, que ‘pensasse’ enquanto atuasse, enquanto estivesse numa cena”.

Jeffrey (Kyle MacLachlan) tem um plano maluco de invadir o apartamento de Dorothy (Isabella Rossellini) e espioná-la. Um plano no qual tenta envolver a todo custo sua amada Sandy (Laura Dern). A personagem tem sempre um olhar perplexo, indulgente, preocupado. Exatos 20 anos depois — em 2006 — , Dern faz o papel de Nicky, a “mulher em apuros” de Inland Empire, o último filme de DL.

Aos poucos você vai descobrindo passo-a-passo, junto com a dupla Kyle & Laura, o que e qual a finalidade de tudo. No filme há várias insinuações sobre a misteriosa morte do ex-presidente americano Lincoln. Numa dada cena, focaliza o nome de uma rua: “Lincoln Street”. E também o nome de um personagem, “Frank Booth”. Esse sobrenome faz referência ao nome do assassino do ex-presidente. Alguns também dizem que a posição com que a blue haired woman de Mulholland Drive sentava era a mesma de Lincoln nos tempos da política.

Segundo Rosellini, a primeira cena que filmaram foi a do estupro. Ela acrescenta: “porque David pensou que seria melhor fazer logo”.

Eu não conhecia [Dennis antes] e tivemos que filmar aquela cena. Foi muito assustador. Lembro-me de me desculpar porque tive de abrir minhas pernas na frente dele. Ele estava se curvando [na cena], e minha vagina estava ali … eu me desculpei, e ele respondeu: “Eu já vi isso antes”. “De qualquer forma, ele me fez sentir confortável.

👉 Referência: http://www.elle.com/culture/movies-tv/a40319/blue-velvet-isabella-rossellini-kyle-maclachlan/

O interessante de Veludo Azul é que, no final do filme, você fica com aquela sensação de “quero ser um detetive júnior que nem o Jeffrey Beaumont!”. Claro que sou extremamente suspeito para comentar sobre filmes do meu diretor favorito, mas certamente o intenso e eterno clima noir gera uma gostosa estranheza, uma vontade de ver tudo até o fim. Por causa de Blue Velvet que, na época (talvez 2002 quando vi pela primeira vez), fui procurar outros do Lynch. Encontrei The Straight Story, Mulholland Drive, Lost Highway, Eraserhead. A paixão pela obra fílmica do diretor, então, estava se formando.

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