A meta de leitura

Eu tinha colocado, por brincadeira, 20 livros para 2018. Era realmente pura brincadeira – jamais imaginei que terminaria um e logo emendaria com outro. E assim foi. Cheguei a ler dois por mês. Parece brincadeira, pois sei que há pessoas que leem bem mais que isso, mas foi a primeira vez que “dei o gás” nos meus livros que estavam encostados na minha estante pegando poeira.

Quando falo isto, a pergunta mais comum que fazem é: quais livros você leu e de que tipos são? Eu fico titubeando, pois é tão difícil classificar as coisas. Eu sempre tento frizar que estou dando prioridade a clássicos da literatura mundial. Dostoiéski, Thomas Mann, Virginia Woolf. Autores brasileiros como Érico Verissimo, Jô Soares, Eça de Queirós, Machado de Assis. Na minha opinião, os principais livros desses autores ajudaram a desenhar o que a literatura é hoje. E lê-los é fundamental para compreender como as pessoas estão escrevendo hoje. E eu acho isso magnífico.

E claro: há falhas da minha parte. Sobre Thomas Mann, tentei começar “A Montanha Mágica” três vezes. Não consegui engatar. O livro é considerado um marco da literatura do mundo. E agora? Aquele peso na consciência de estar perdendo a oportunidade de descobrir isto por conta própria, e não nas palavras “dos outros”. Inclusive, acho que este é o melhor e maior combustível que me faz ler: descobrir por mim mesmo o que de tão mágico tem essas leituras. E a sensação é única.

O livro mais marcante foi “Coração e Alma”, da autora francesa Maylis de Kerangal. Comprei por acaso numa promoção na Amazon e a leitura foi surpreendente. Foi quase em um fôlego. Aliás, o livro é um fôlego, altamente recomendado para quem quer sentir o impacto emocional de uma espécie de “corrida contra o tempo”. O livro é da editora Rádio Londres, que tem títulos incríveis.

O que menos gostei foi um da TAG Inédito, cujo título é Stalker, da autora Tarryn Fisher. Embora nos prenda do início ao fim, achei o enredo fraco. De fácil leitura – a fluidez é real. Tem quase 300 páginas e li em menos de 24 horas. Conta a história de uma maníaca psicótica que fica doida pela filha de 3 anos da vizinha, pois ela poderia ser a filha que ela nunca teve (ou deveria ter tido com o marido louco que ela tinha). Ela – a psicótica – simplesmente compra a casa vizinha à família que ela vai stalkear com o único propósito de ficar mais perto deles. Um livro bizarro com um final que poderia ser sensacional… Se virasse filme, não seria blockbuster e acho que não vingaria. Não é ruim, mas também não é tão bom. Enfim, o livro poderia ter sido melhor selecionado pelo Clube. Mas nenhuma leitura é desperdiçada.

Para 2019, planejo tentar zerar a minha estante que está cheia de livros que compro mas nunca leio de fato. Acho que todo mundo tem esse problema. A gente gosta de ir em uma livraria, passear pelas estantes, olhar os vários títulos, de diferentes autores, temas, nacionalidades, cores, enredos. Você sente o mix do cheiro de livro novo, a luz da livraria que convida a pegar um livro qualquer, abri-lo e folheá-lo por dez minutos que fosse. Aí vem o cheierinho de café gostoso do espaço gastronômico do local. Logo depois, a sensação: preciso comprar esse livro. Chega-se em casa e ele vai para a pilha dos não-lidos. Se duvidar, acaba fazendo amizade com os outros que estão na mesma situação. Imagino até o diálogo:

“E aí, Dostoiesvki, beleza? Ele te comprou, mas te deixou aqui com a gente. Pois é, pode esperar deitado, pois dificilmente tu vais ser lido”.

De fato, tem “Os Irmãos Karamazov” ali esperando para ser aberto.

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