Não há nada mais humano que chorar com ‘Através do Espelho’

Na primeira vez que li esse livro, senti um leve nó na cabeça, como se algo tivesse me despertado. Foi uma surpresa. E não há nada mais gostoso numa leitura do que sentir o prazer da surpresa de uma narrativa. Você simplesmente não espera que tal ação vá acontecer. E quando acontece: algo te acorda, desperta, sorri para você e a sua reação é ficar atônito.

Cecilia Skotbu me marcou. Ela representa, talvez, todos nós, cuja necessidade de sonhar é inerente a persona que você carrega.

Ela está doente. A família tem noção da gravidade de sua doença, mas Cecilia não sabe. Ela dorme e acorda achando que está apenas acamada com algo que logo será curado. O livro se passa durante os festejos de Natal. E não foi por acaso que Gaarder escolheu justamente este tema: é a época cujas famílias se reúnem, fazem suas refeições juntas, trocam presentes e afetos. Atitudes estas que não são recorrentes nos outros dias do ano. A família cuida de Cecilia como quem cuida de uma pessoa bem idosa, quase à beira da morte. A maioria das necessidades dela são atendidas.

Daí, em meio ao sono e a dor de sua doença, ela conhece um anjo. Ele passa, então, a guiá-la todos os dias, acompanhando-a em cada passo, em cada dia. Ele explica que não é um ser humano, e sim um ser iluminado por Deus, cuja missão é cuidar dela até… enfim. Cecilia então passa a “viajar” com o anjo, conversa com ele todos os dias, escreve num diário o que aprendeu. Todas as noites, ele faz companhia a Cecilia, e ensina muita coisa sobre a Terra, o sol, as pessoas, as atitudes, os homens e o mundo. Ele até tenta explicar quem ele é de verdade, demonstrando que consegue ultrapassar paredes, estar em vários lugares ao mesmo tempo com a força do pensamento. Mas ele lamenta, por exemplo, não conseguir sentir o gosto das coisas assim como os humanos sentem. E ele explica isso a Cecilia da forma mais “doce” possível.

As coisas que vai aprendendo ela anota num caderninho. Ali ela escreveu, por exemplo:

Nós enxergamos tudo num espelho, obscuramente. Às vezes conseguimos espiar através do espelho e ter uma visão de como são as coisas do outro lado. Se conseguíssemos polir mais esse espelho, veríamos muito mais coisas. Porém não enxergaríamos mais a nós mesmos.

Nas coisas em que escrevo, não gosto de contar o final dos livros. A não ser que seja um livro bem clássico, cujo final é de conhecimento geral. Neste, prefiro que o leitor procure na livraria mais próxima, na loja virtual, peça emprestado, etc, e leia. É gostoso perceber o quão envolve e filosófico o livro é e o quanto ele consegue nos deixar pensativos, tentando entender o sentido de tudo, o sentido das coisas e pessoas a sua volta. Posso dizer que você não vai se arrepender.

Narrativas ‘despedaçadas’

‘Quero Minha Mãe’, de Adélia Prado, é uma narrativa “despedaçada”, como aqueles cadernos que usamos para escrever alguns pensamentos e guardamos na gaveta. Depois de dias, a gente se lembra dele, escreve mais alguma coisa e guarda novamente no mesmo lugar. Foi isto que percebi ao ler a obra.

Na primeira folha, somos impactados: Olímpia é diagnosticada com câncer e discorre sobre isto em pensamentos soltos. A cada página é como se fôssemos levados pelo inconsciente — que na verdade está bem consciente — da autora. Cada página, um rabisco. Na época de lançamento, Adélia estava prestes a completar 70 anos. Uma vida inteira de experiências posta em poucas folhas de papel.

A grande referência da autora durante a narrativa é, obviamente, a sua mãe. Num trecho, ela diz: “Estou me lembrando da minha mãe, morreu num mês de setembro, a três meses da minha formatura no ginásio, cercada de travesseiros, os lábios muito roxos, puxando o ar, minhas tias, meu pai, meus irmãos em volta”.

A história do livro — e a narrativa da autora — me fez lembrar de minha tia-avó. Ela se chamava Tainha, com o ‘a’ nasalizado, como em ‘são’. Morava sozinha, tinha dois gatos (o Chitãozinho e o Xororó), gostava de ler, mas nunca escrevia. Consigo imaginar Tainha falando que nem Olímpia, observando causos da vida, falando do câncer, das relações com as irmãs e pessoas próximas. Rezando as aves-marias, pedindo perdão a Deus por algum deslize e em seguida cometendo-o sem dó.

Precisamos de nossas mães. No meio da turbulência, nos dão um pedacinho de paz. Aquela paz que reconforta, faz lembrar um boa época da vida, que assopra o coração nervoso e acalenta nosso ser. No meio de tudo isto, Olímpia só queria sua mãe.

Uma cidade que vale a pena

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Duomo de Milão

Quando decidi fazer um mini intercâmbio de 3 meses lá em novembro de 2012, a primeira coisa que imaginei foi ir para um país que eu já tivesse estudado o idioma. Como já tinha inglês e não tinha um visto americano, não fazia sentido ir para os EUA. Escolhi a Itália por já ter terminado de estudar o curso e por gostar do idioma, da cultura italina e no que isso poderia acrescentar na minha vida pessoal.

Peguei a rescisão de um emprego que eu havia sido demitido e simplesmente fui. Na época ainda não tinha a nacionalidade portuguesa, então fui só com o passaporte brasileiro mesmo. Aquele medo de passar por imigração, mas lembro de ter sido tão tranquilo. Se não me falha a memória, a moça perguntou apenas quanto tempo eu ia ficar na Europa. Em poucos minutos eu já estava no saguão do aeroporto de Lisboa. A conexão duraria menos de 2 horas, peguei o vôo para Milão e cheguei à noite.

Naquela época, a agência de intercâmbio tinha me oferecido um transfer para que me levasse diretamente ao apartamento onde eu iria ficar. Meses depois eu me arrependi pois foi muito caro e eu poderia ter pegado um trem até a estação Milano Centrale, que ficava super próximo da acomodação. Mas, enfim, águas passadas! 😆

Era a minha primeira vez na Europa.

  • O apartamento que fiquei ficava numa região super bacana, “perto de tudo”. Inclusive, claro, da escola na qual eu iria estudar o italiano avançado. Era bem antigo, com móveis dos anos 50, e com um espelho bem perto da porta. (sim, para mim isso é um detalhe interessante).
  • O elevador também era antigão, daqueles com porta de correr e grades. Apertava-se um botão super retrô e ele subia ou descia super devagar.
  • Tinha um casal de velhinhos que ficavam na portaria, tipo numa sala, talvez eram os “zeladores” do saguão do prédio. Super simpáticos.
  • O dono do apartamento era um senhor de sobrenome Biragui. Gostava muito de conversar com ele e perdoava meus erros no italiano.

Meu colega de quarto era um russo. Felizmente esqueci o nome dele, mas foi bem problemático. Cada um tinha seu quarto e nas primeiras duas semanas (eram 4 em Milão), tudo correu bem. Íamos para a aula juntos e nos encontrávamos no intervalo. Uma vez ele pediu que eu o acompanhasse até uma loja pois ele queria comprar um casaco. Nesse dia fiquei com a sensação de que havíamos nos perdido. O Maps não era tão rico em rotas como era hoje, então eu não ia saber me virar tanto assim. Só sei que nesta tal loja ele comprou um casaco de couro muito caro. Coisa de mais de mil euros.

Na segunda semana em diante ele começo a ficar estranho. Comprava vinho e se trancava no quarto para beber. Uma vez ele bebeu tanto que vomitou o quarto inteiro. E ainda no frio… o ar dentro do apartamento ficuo insuportável. Certa vez, ao chegar lá depois de um dia inteiro fora aproveitando a cidade, no caminho para o meu quarto eu percebi ele deitado na cama, pelado, com garrafas de vinho ao redor. Aquilo me deixou tão assustado! Como a acomodação era vinculada à escola, tive que comunicar o que estava acontecendo.

No dia seguinte o senhor Biragui foi lá conversar comigo. O russo não estava. Ele pediu perdão pelo ‘incoveniente’ – e realmente era. Eu disse que como faltava apenas 5 dias para eu ir embora, não tinha necessidade de trocar de apartamento. Eu poderia aguentar. Passava o dia inteiro fora para não ter que lidar com o tal russo. Mas certo dia eu estava quase dormindo quando meu celular toca. Ele tinha saído e eu nem tinha notado. Eram quase 1 da manhã e ele falando num italiano super ruim que estava do lado de fora do prédio e que tinha perdido a chave. Precisava de mim para que eu pudesse descer e abrir a porta. Detalhe: estava 1ºC grau, super frio. O que eu fiz? Sim, nem peguei um casaco nem nada. Desci só com blusa e calção e fui lá abrir a porta. Sentir um frio intenso sem roupas apropriadas é muito bizarro.

No fim das contas, no último dia, saí de supetão do apartamento com as malas prontas e nem deu tchau pro russo pq ele estava dormindo bêbado. O último dia de aula da escola foi muito bom. Jamais vou esquecer da galera que conheci. Alguns ainda estão no Facebook, mas o contato foi ficando mais escasso. Enfim, seis anos se passaram. Se eu faria tudo de novo? Bom… se for dividir um apartamento com alguém ok, por mim tá ótimo repetir a experiência.

Neve pela primeira vez

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Essa foto foi o momento que eu vi a neve pela primeira vez. Estava voltando das minhas caminhadas diárias pela Corso Buenos Aires quando começa um princípio de chuva + neve, depois ficou só a neve. Aí eu estava acolhido debaixo de uma laje, esperando o temporal ficar menos forte. Saudades.

As ruas estavam sempre lotadas de turistas e sim, aquela sensação de estar numa passarela repleta de gente bonita indo e vindo, com roupas estilosas cheias de tendências. Muitos restaurantes chineses, muitas lanchonetes especializadas em kebab (saudades, kebab!), muitos cafés com maravilhosos com brioches de chocolate. Isso sim me dá muita saudade! Fica a dica: Sali & Tabacchi, na Corso Buenos Aires, 49. 🖤

Helena me guiou

Era dia, e eu estava saindo daquele lugar. Era um estabelecimento lindo, com paredes coloridas, escada muito grande e um hall de entrada estupendo. Eu enxergava com dificuldade, mas no centro do hall pude reconhecer minha amiga Helena. Ela estava em pé, com uma blusa preta, jeans azul claro, com aquela bolsinha de mulher pendurada no ombro. Ela me deu um abraço acolhedor, um beijo mágico e eu pude sentir o perfume inebriante que ela usava. Lembro que minha expressão não foi de muita surpresa. Não sei porque. Nem de Helena. Mas ela pegou em minha mão e disse “vamos”.

Comecei a caminhar com ela pela cidade. A aura parecia coisa de cinema. Raios cintilantes saiam de todo lugar, eu me sentia protegido por aquilo tudo. Andamos por muitas ruas, relembrando os nossos tempos de criança, contando fatos e acasos que ficaram esquecidos em alguma gaveta do empoeirada do tempo. Ela me perguntou onde eu morava, e eu não soube dizer. Ela me perguntou o que eu fazia, mas fiquei calado. Não tive reação. A sensação era de que iríamos ser amigos pra sempre a partir daquele momento e nada mais poderia nos separar. O tempo correspondia a isso. E a mágica não parava, eu via as cores da alegria percorrendo todo o lugar.

Chegamos a um determinado lugar, e ela disse “espere aí”. Ela entrou, como se fosse buscar alguma coisa. Eu não sentia o tempo passar, mas não resisti e entrei no lugar para ver onde estava. Era como se fosse um sótão, tinha que subir uma escada, abrir um compartimento para chegar lá. Olhei em volta. Várias camas cor de rosa espalhados, o cheiro do quarto era doce como chiclete, havia ursinhos de pelúcia e outros bonecos pelas camas. O ar era frio. Descobri vários gatinhos deitados numa caminha ao chão, todos com coleirinhas. Mas Helena não estava lá. Ela sumiu, assim do nada. Deixou-me esperando, fez com que eu fosse procurá-la. Imediatamente senti o vazio adentrar meu corpo, e me senti pesado. O vazio dói. Para onde ela foi? E por que? Não era Helena quem me guiava naquele passeio? Acordei? Acordei.

Copyright – Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0)

Eu que já tentei escrever um livro diversas vezes

O título desse post pode sugerir muitas coisas — até porque todo mundo já decidiu escrever um livro em algum momento na vida. Ou talvez o correto não seria ‘decidido’, mas pensado, talvez. “Vou escrever um livro sobre essa minha vida desastrada”, etc. A gente tem essa urgência de escrever, como se colocar as coisas no papel fosse uma solução “carta-na-manga” para muitas de nossas angústias. No final, ninguém faz absolutamente nada. Continuamos alimentando nossa frustração diária e dizendo que sim, vou pôr no papel (ou na tela do computador) o acontecimento de hoje para jamais esquecer e livrar de mim tal preocupação.

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Quando eu tinha meus 20 anos, fazia cursinho pré-vestibular em uma escola perto de casa. No caminho de casa para lá, uma senhora com um vestido rosa rasgado bem na alça próximo ao pescoço estava aguando as plantinhas em frente as casa dela. Eu caminhava normalmente e ao mesmo tempo lembro de observar aquela cena, que parecia tão simples, mas muito significativa para mim. Era a simplicidade ali, personificada. Era a paz dando de regar às plantas. Essa cena foi pano de fundo de uma crônica minha, que hoje luto para achar em algum CD gravado por aí. Maldita tecnologia que não dura mais nada.

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Outra vez, no ônibus, passei pela catraca e uma senhora, talvez nos seus 45-50 anos, estava sentada na janela com a cabeça encostada no vidro. O ônibus estava vazio. Sentei um pouco atrás, mas do outro lado. Olhando com mais atenção eu poderia ver o rosto dela de perfil. Observando a janela tranquilamente, vejo sem querer o rosto dela. E noto que estava molhado. Ela continuava com a cabeça encostada no vidro. O ônibus balançava muito. Foi quando notei uma lágrima caindo, lentamente. A cena foi rápida. Ela limpou em seguida e o lotação teve que parar pois chegara ao destino final. Um mulher chorando, tranquila, dentro de um coletivo. Milhões de razões.

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Também no ônibus, certa vez sentei antes da catraca para descansar as pernas. Subiu uma moça, deficiente visual, sozinha. Sentou-se na cadeira em frente a minha. Sacou o celular e colocou-o bem próximo ao ouvido. Em seguida, ela digitava os números e ouvia os sons atentamente, precisamente para saber se eram aqueles mesmos. Ela adaptou-se ao mundo pelos sons de tudo ao seu redor, e agora sabe o “som das letras”. Que som tem o um? E o nove? A fulana que sentou na minha frente sabe. Alguém atendeu e ela conversava amenidades.

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Não gosto de ir a cemitérios. É o lugar do fim para muita gente. Não tem como não significar ‘fim’. É o lugar onde sempre caminhamos devagar em um sinal de respeito e vamos em direção aos restos materiais de quem não existe mais aqui. O lugar onde todo mundo é igual, onde não há classes sociais, divisão de classes por quantidade de dinheiro — tudo isto é criação da gente, humanos. Ninguém alcança a luz por ter mais zeros à direita na conta, mas pelo o que fez enquanto em vida. Ou Pablo Escobar não deixou nenhuma lição pra você?

O fabuloso destino de Maria da Glória

Alva. Inexata. Maria balançava os cabelos feitos ondas do mar, feito molas preto-azuladas. Seu corpo não era por ora esbelto, mas a bem distribuída carne fazia de Maria uma mulher desejada. Maria da Glória era o seu nome. Tem este nome pois há algumas décadas, quando do seu nascimento, Maria quase provoca a morte de sua querida mãe, enquanto saía de seu ventre. A mulher deu trabalho já quando nascia. Mas Maria da Glória era uma moça perseverante, graciosa, meiga, com um olhar profunda e jovial.

As ruas de sua cidade nunca estiveram tão vazias. A praça nunca tivera tantas folhas secas ao chão. O tempo nunca estivera tão frio. Maria andava contra o vento, brigando por um espaço no espaço, os cabelos titubeando de raiva por estarem sendo jogados ao nada. O olhar verde-claro não estava bem. A exuberância das dezenas de colares e acessórios que usava tornava-a talvez uma mulher de atitude, cheia de charme e beleza. O céu agora ficou preto. Maria da Glória olhava atenta para as nuvens rosas. Engraçado como as nuvens às vezes desenham-se no infinito, dando a entender formas e objetos inusitados. Maria da Glória parece que viu um crucifixo de nuvem no céu.

Por um momento pensou estar treslouca. Por um momento, Maria quis sair correndo no meio da praça, no meio das folhas, no meio do vento, no centro do espaço. Mas uma lágrima caía do rosto de Maria. O que era aquilo? Seria uma lágrima? Uma lágrima do rosto de Maria? Não. O céu preto que estava louco. Os verdes-claros olhos estavam molhados. Os verdes-claros olhos estava vermelhos. A pele alva estava quase branca. Maria da Glória era sempre inexata. Nunca deixara certeza de nada. Talvez Maria entendia a essência do ser humano.

Mas de que adiantava tudo aquilo, se Maria da Glória havia perdido o tom da vida? O mundo de Maria agora era quente, seco, era nada. Maria agora não pensava, talvez. Maria agora estava longe, muito longe. Aonde as estrelas jamais a encontrarão. Maria da Glória teve um fabuloso destino. Maria da Glória foi reduzida às quatro paredes de um caixão.

Publicado originalmente em 2006 em um blog no wordpress. by Thiago

Copyright – Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0)

The Straight Story

Aviso de conteúdo: contém spoilers. Mas vale a pena assistir.

Perdão. É disso que o filme trata ao longo de seus cento e onze minutos. Alvin Straight é um homem pacato, que vive com sua filha Rosie de meia-idade e problemas mentais em uma pequena cidade numa área rural nos Estados Unidos. No começo do filme já somos apresentados por uma situação-problema (assim como em todos os filmes de Lynch): Alvin está estirado no chão, sem poder mover-se. Um amigo encontra-o e em seguida sua adorada filha entra em pânico quando o vê caído no solo. Alvin vai ao médico contra a própria vontade, e ele indica o uso de bengalas por causa de seus precários movimentos. Depois, o médico também constata problemas visuais, possivelmente conseqüência de diabetes do personagem. Alvin recusa-se a tratamentos e até mesmo a usar as benditas bengalas, mas em seguida acaba cedendo.

Apaixonado por tratores, ele passa o dia a consertar e a mexer em um. Numa cena, ele está mexendo numas ferramentas, perto do veículo, quando um grande trovão anuncia a chegada de um temporal. Em seguida vemos pai e filha sentados à janela observando a chuva torrencial com suas grandes luzes fumegantes provindas dos raios.

“I love the light of the storm”, diz Alvin.

“Me too, dad”, retruca a filha.

Como de supetão, o telefone toca. Percebemos agora outro grande momento de qualquer filme de David Lynch: um ponto chave. A filha atende o telefone e anuncia para Alvin que seu irmão, Lyle, teve um derrame. Menos um segundo depois, um grande raio soa na cena, com um barulho maior que os raios anteriores. Simbologia, eu diria. Algo aconteceu. Algo vai acontecer. Alvin, de 79 anos, não se aquieta, pois não vê o irmão há dez anos. Numa cena, quando sua filha está na janela observando a paisagem, Alvin aparece de repente e anuncia que vai enfrentar as estradas. Há bastante convicção na expressão do personagem.

Tempo depois, mesmo sem o consentimentos dos amigos, que o chamavam de louco, Alvin pega seu trator, arruma uma pequeno trailer, e sai na estrada em busca de seu irmão. Acompanhamos o personagem nessa viagem maravilhosa que ele faz ao seu próprio passado, redescobrindo sentimentos e pensamentos até então escondidos. Aos 24 minutos do filme somos presenteados com uma bela trilha sonora composta e conduzida por Angelo Badalamenti (parceiro de Lynch há anos). Uma pequena canção de piano/violão que nos toca se realmente estivermos entendido o propósito do filme. E lá se vai Alvin Straight, um homem já de muita idade, só com a cara e a coragem, atrás de rever o seu grande irmão, que mora há mais de 300 milhas de onde ele está. Quando o vemos dirigindo o minúsculo trailer, logo pensamos “mas que frágil homem é esse! como ele conseguirá atravessar metade do país sozinho com esta idade e com este trator?”. Pois é. Tudo é questão de querer e de quebrar, ultrapassando as barreiras. Quando queremos algo, e miramos o nosso objetivo, o que os impede? Algo teoricamente pode até nos impedir, mas e se forem somente dificuldades ideológicas, que criamos sem propósito algum, só para não colocarmos à frente grandes projetos em nossa vida? Um homem de 79 anos pensa assim. Nunca me esquecerei de uma frase que Alvin disse em alguma parte deste filme. Um ciclista pergunta, “e então Alvin, qual a parte melhor de ser velho?” e ele responde: “olhar para trás, e se lembrar da sua juventude”. Ele conhece pessoas estranhas em sua vida, faz confidências a elas, encontra pessoas em uma pequena cidade, já perto do seu destino. Mas seu trator acaba dando um problema, fazendo com que permanecesse dois dias no local. Essa também é umas das principais cenas do filme: a receptividade daquele povo para com Alvin.

E logo depois chega o final do filme, quando Alvin, já cansado, consegue com muita dificuldade encontrar a casa do seu irmão. E com esse final, fazemos uma pequena reflexão sobre o sentido das coisas, o sentido do personagem ter traçado todo esse caminho até chegar ao seu final encontrando o irmão doente. No começo deste texto eu disse que o filme baseava-se no perdão. E agora sim esta afirmação faz sentido. Alvin e o irmão eram próximos mas infelizmente, por conta de problemas, ficaram sem se falar por dez anos. Mas podiam ter mantido contato memso assim. Mas não mantiveram. Depois de saber que ele estava quase à beira da morte, e com medo de nunca mais vê-lo, Alvin entrega-se ao perigo e ao objetivo de ir visitá-lo de vez. Perdoando-o por todo esse tempo de ausência, deixando de lado todas as implicações que talvez tiveram durante todo este tempo. Para quê? Porque? A película deixa estas singelas perguntas no ar. Talvez essa seja a maravilha de todos os cento e onze minutos. E de todos os filmes de Lynch.

A falta

Quando eu era criança, provavelmente estudando na 3ª ou 4ª série, meu pai costumava me bater quando eu tirava notas ruins no colégio. Nunca passou pela cabeça dele perguntar a mim o que estava acontecendo, se eu tinha alguma dificuldade de aprender, se eu estudava, se era por que eu não estava realmente entendendo ou aprendendo tal matéria. Podia ser alguma dificuldade de atenção/aprendizagem — algo que podia se resolvido com acompanhamento mais sensato. Ao ver o boletim, apenas ficava com raiva por ver notas baixas e já ameaçava dizendo que, quando chegarmos em casa, iria resolver isso. Na época, meu pai is nos pegar no colégio (eu, minha irmã e meu primo), pois morávamos na mesma rua.

Lembro de uma vez, quando chegamos em casa, meu pai logo me chamou para o quarto dele e foi preparando o cinto. Sabendo que as “cintadas” seriam fortes, fui para o meu quarto bem rápido e coloquei mais uma cueca em cima da que eu já estava usando. O engraçado é que lembro até da estampa. Era verde com uns desenhos que lembravam arabescos, misturados com pontos na cor laranja. Ia doer, eu ia chorar. Muito. Depois do espancamento na região das nádegas, ele pedia para eu sair do quarto dele. Triste, lembro de sentir certa agonia. Como aprender melhor e mais rápido se eu de fato tinha dificuldade de fixar as inúmeras contas de matemática na memória? Na época, é claro que eu não fazia ideia disso, mas hoje penso que eu sofria fisicamente algo que eu não tinha culpa. Hoje é frustrante imaginar isto.

O mais incrível de tudo é que eu nem culpo meu pai por essa violência sofrida quando criança. Infelizmente, era o jeito dele de ‘educar’, algo que não deve ser repetido jamais em nenhuma família. Nunca aprendi matemática como deveria e sempre fui de Humanas, mesmo hoje depois da casa dos 30 anos. A violência acabou depois que fui crescendo, mas fiquei com medo de notas ruins. Estudava mais e melhor. Fiquei de “recuperação” no colégio só no 2º ano do ensino médio. Em biologia e… matemática. Mais especificamente em geometria, lembro. Foi tranquilo.

Hoje completa-se 13 anos desde que meu pai partiu para um plano superior. As emoções ficam mais sensíveis, já que lembro de muitas coisas que ele dizia e fazia. Nos meses finais, notei as atitudes mais suaves e leves dele. Parecia compreender mais as pessoas, deixou de brigar por besteira com minha mãe, ouvia com mais atenção e era mais solícito comigo. Estava ele sabendo que ia morrer? Afinal, ninguém sabe.

Eu sinto falta dele como presença de pai. Faz sim falta. Não é como ter se mudado e deixado os pais ‘sozinhos’ ou os pais terem se separado. A morte dele é justamente aquele buraco que não vai ser mais preenchido. Não é como pegar uma condução para ir visitá-lo, pois ele não está mais em nenhum lugar aqui. Por isso a falta. Eu tinha 21 anos na época e lidar com isso com tão pouca idade teve seu preço.